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O que as fezes do seu gato revelam sobre a saúde dele

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O que as fezes do seu gato revelam sobre a saúde dele

O Cocô Felino como Biópsia Comportamental: Um Protocolo de Avaliação Clínica

Bom dia, turma. Peguem suas canetas e preparem-se para a aula mais importante do dia: a ciência da coprologia. Sei o que você está pensando: “Professor, falar de cocô logo de manhã?” Sim, meu caro futuro colega, porque na rotina da clínica de pequenos animais, o dejeto que o paciente deixa na caixa de areia não é um simples resíduo; é um painel de exames completo que você pode inspecionar de graça.

A avaliação das fezes é a primeira linha de defesa, a triagem inicial do trato gastrointestinal. Se um tutor te diz que o gato está “agindo estranho”, mas não apresenta vômitos ou diarreia evidente, você sempre deve perguntar sobre as fezes. Lembre-se, o trato gastrointestinal felino é uma obra-prima da engenharia evolutiva, feita para processar dietas carnívoras restritas. Qualquer desvio nesse processamento se manifesta no produto final. Portanto, quando você abre a porta daquele sandbox sanitário, você não está só limpando; você está fazendo uma biópsia comportamental e fisiológica. Você está olhando a saúde do paciente, desde o esôfago até o reto, com um simples olhar.

Essa observação, quando feita com metodologia, permite que você localize a lesão, diferencie causas dietéticas de infecciosas ou inflamatórias, e o mais crucial, antecipe diagnósticos graves antes que o paciente apresente sinais sistêmicos mais sérios. É por isso que insisto: o estudante de veterinária precisa aprender a amar a caixa de areia. É ali que a verdade clínica se manifesta.

A Escala de Bristol Felina: Avaliando a Consistência e o Trânsito Intestinal

Temos uma ferramenta validada, adaptada da medicina humana, mas que funciona perfeitamente para nós: a Escala de Bristol. Ela classifica as fezes de 1 a 7, do mais duro ao mais líquido. Na prática clínica felina, a consistência é frequentemente o primeiro sinal de alerta que o tutor percebe, e é o nosso principal indicador de tempo de trânsito intestinal.

Um trânsito muito rápido (diarreia) não permite a absorção adequada de água e nutrientes. Um trânsito muito lento (constipação) permite uma reabsorção excessiva de água, desidratando o bolo fecal. Você precisa treinar seu olho e o do seu tutor para identificar o padrão de ouro e reconhecer os desvios. O sucesso do seu tratamento muitas vezes depende apenas de você saber onde na escala o paciente está.

A Forma Ideal (Tipo 3 e 4): Um Efeito de Massa Perfeito

O padrão ideal de fezes felinas se encaixa perfeitamente no que chamamos de tipo 3 e 4 da Escala de Bristol (adaptada). Pense em um charuto bem formado, marrom-escuro, que se quebra levemente se for manuseado — o que, cá entre nós, nunca faremos sem luvas, é claro.

O que o tipo 3 ou 4 nos diz, na verdade, é que a microbiota intestinal está em pleno e harmonioso funcionamento e a motilidade do cólon está perfeita. A fibra dietética presente, combinada com a água retida, cria o volume ideal, o chamado efeito de massa, que estimula as contrações peristálticas regulares sem gerar esforço excessivo ou retenção. Isso significa que a digestão e absorção no intestino delgado foram completas e o intestino grosso fez seu trabalho final de reabsorção hídrica com precisão cirúrgica. Se você tem um paciente produzindo consistentemente fezes assim, mantenha a dieta e o manejo hídrico. Ele está em um estado de equilíbrio perfeito, ou seja, em plena eubiose. Qualquer alteração para mais mole ou mais dura a partir deste ponto merece sua atenção clínica imediata.

Fezes Duras e Ressecadas (Tipo 1 e 2): O Alerta de Constipação e Desidratação Crônica

Quando as fezes se parecem com pequenas bolinhas secas, duras e separadas (Tipo 1), ou um tronco segmentado e muito firme (Tipo 2), o alarme de constipação deve soar alto. Em gatos, isso não é apenas desconforto; é um sinal de desidratação crônica.

Pense na fisiopatologia: a principal função do intestino grosso é reabsorver água. Se o gato não está ingerindo água suficiente, o corpo fará um trabalho ainda mais agressivo para reter o máximo de fluido possível, resultando em um bolo fecal ressecado. Muitas vezes, a causa primária é a doença renal crônica (DRC), extremamente comum em felinos. Gatos com DRC bebem mais, mas perdem mais água na urina, entrando em um ciclo de desidratação branda que se manifesta nas fezes. Além disso, a dor ao defecar, muitas vezes por artrite em gatos mais velhos (que não conseguem assumir a postura ideal), faz com que eles evitem a caixa, o que agrava a retenção e leva à constipação. A solução aqui não é só laxante; é um protocolo completo de manejo hídrico e investigação da dor e da DRC.

Diarreia (Tipos 5, 6 e 7): A Localização da Lesão (Intestino Delgado vs. Intestino Grosso)

Diarreia, ou seja, fezes moles ou aquosas (Tipos 5, 6 e 7), é a queixa mais comum. Seu trabalho não é apenas tratar a diarreia, mas localizar a lesão anatômica. Isso é o diagnóstico diferencial do TGI!

Se você tem uma diarreia de Intestino Delgado (ID), o volume fecal é grande, a frequência não é dramaticamente aumentada, mas pode haver perda de peso (pois a absorção de nutrientes está comprometida). Causas comuns incluem má digestão ou má absorção generalizada. Já a diarreia de Intestino Grosso (IG), a famosa colite, é a mais alarmante para o tutor. O volume fecal é pequeno, mas a frequência é muito aumentada, e muitas vezes acompanhada de muco ou sangue fresco (hematoquezia). O gato pode apresentar tenesmo (esforço doloroso e ineficaz para defecar). Diferenciar entre ID e IG é o primeiro passo crucial para escolher o tratamento certo, seja ele um anti-inflamatório, um antibiótico para a disbiose secundária ou um antiparasitário específico para inimigos como a Giardia ou, em casos graves e agudos em filhotes, a devastadora Panleucopenia Felina.

As Cores do Espectro Patológico: Decifrando o Fluxo Biliar e o Sangue

A cor do dejeto é um indicador metabólico e uma janela para a função de órgãos vitais, como o fígado e o pâncreas. O tom marrom-chocolate normal é o resultado da degradação da hemoglobina e da presença da estercobilina, um subproduto da bile.

Qualquer desvio significativo nessa coloração indica uma interrupção em algum ponto dessa via metabólica ou, de forma mais alarmante, a presença de sangue oculto. Ensinar o tutor a descrever a cor com precisão é um desafio, mas é essencial. Você está buscando a cor natural e a cor patológica.

Melanemia e Hematoquezia: Onde o Sangramento se Esconde

Quando você encontra fezes pretas, escuras e com aspecto de alcatrão — um fenômeno que chamamos de melena — você não está vendo sangue fresco. Você está vendo sangue que foi digerido.

Isso significa que a hemorragia está localizada no trato gastrointestinal superior (TGI Superior), ou seja, esôfago, estômago ou intestino delgado proximal. O ácido clorídrico e as enzimas digestivas atuam sobre a hemoglobina, oxidando-a e dando-lhe essa coloração escura e pegajosa. Melena é sempre grave e indica úlceras gástricas, tumores ou coagulopatias. Em contraste, a hematoquezia é a presença de sangue vermelho vivo e fresco nas fezes ou sobre elas. Isso indica sangramento no TGI Inferior (cólon, reto, ânus), geralmente associado à colite severa, proctite ou, em casos menos comuns, a pólipos retais. O diagnóstico diferencial aqui é simples, mas crucial: Melena = TGI Superior. Hematoquezia = TGI Inferior.

Acólia e Icterícia: Quando o Fígado e a Vesícula Balam a Festa

As fezes muito claras, esbranquiçadas ou argilosas, o que na patologia chamamos de acolia fecal, são um sinal de alerta máximo para problemas biliares. Lembre-se, a bile, produzida pelo fígado e armazenada na vesícula biliar, é o que dá a cor ao cocô.

Se as fezes estão brancas, significa que a bile não está chegando ao intestino. Isso pode ser causado por uma obstrução biliar extra-hepática (um cálculo, um tumor, uma pancreatite que comprime o ducto) ou por um problema hepático grave que impede a produção ou excreção. Muitas vezes, a acolia vem acompanhada de icterícia (coloração amarelada nas mucosas), confirmando que a bilirrubina está se acumulando no sangue em vez de ser eliminada pelas fezes. Isso é uma emergência clínica que exige avaliação imediata do fígado e do pâncreas.

Tonalidades Anômalas: Verde, Amarelo e Outros Sinais de Desequilíbrio

A cor amarelada nas fezes felinas é classicamente associada à má absorção de gordura ou a um tempo de trânsito intestinal muito rápido (hipermotilidade). Se o alimento passa rápido demais, a bile não tem tempo de ser totalmente convertida em estercobilina, e a cor amarelada da bilirrubina/bilirrubinóides prevalece. No caso de má absorção, como na insuficiência pancreática exócrina (IPE), a gordura não digerida também contribui para a cor pálida e oleosa.

Já as fezes esverdeadas podem assustar, mas geralmente indicam hipermotilidade severa, onde a bile ainda está em sua forma primária (verde) ou uma ingestão de matéria vegetal (grama, plantas). Em casos raros, dietas com corantes verdes ou certas doenças hepáticas podem contribuir, mas o mais comum é a passagem rápida do bolo fecal pelo intestino.

Inclusões e Componentes Anômalos: O Microscópio Ocular

A inspeção macroscópica não termina na cor e na forma. Você precisa olhar para o que está dentro ou sobre as fezes. Chamo isso de “Análise de Conteúdo Bruto”. São os componentes anômalos que nos dão pistas diretas sobre inflamação, parasitas e até o comportamento do paciente.

Muco e Gordura: Colite, Má Absorção e Doença Inflamatória Intestinal (DII)

A presença de muco é o sinal mais clássico de inflamação do cólon (colite). O cólon, ao se irritar, produz excesso de muco protetor para lubrificar a passagem das fezes e tentar aliviar a inflamação. Se o seu paciente tem fezes de pequeno volume, alta frequência e muco, você está lidando com uma colite. As causas podem variar de verminoses simples a alergias alimentares complexas ou a temida Doença Inflamatória Intestinal (DII), uma condição crônica que exige biópsia e manejo dietético rigoroso.

Já a presença de gordura não digerida (esteatorreia) faz com que as fezes pareçam oleosas, volumosas e pálidas. Isso é o sinal direto de má absorção. O pâncreas não está produzindo enzimas lipolíticas suficientes (IPE) ou a mucosa intestinal está tão danificada que não consegue absorver a gordura, independentemente da digestão (Enteropatia). Isso exige exames de sangue e, possivelmente, uma prova terapêutica com enzimas pancreáticas para confirmar.

Corpos Estranhos, Pelos e Parasitas: Do Pica à Verminose

Todo tutor deve ser instruído a inspecionar as fezes em busca de três coisas: objetos, pelos e vida.

A presença de pelos em excesso é comum, mas se for em grande quantidade e constante, pode indicar tricobezoares (bolas de pelo) ou, mais sutilmente, excesso de lambedura (overgrooming). O overgrooming é frequentemente um sinal de dor crônica (artrite, hiperestesia felina) ou estresse/ansiedade – aqui o cocô vira um indicador dermatológico e comportamental. Já corpos estranhos (pedaços de plástico, linha, barbante) são sinais de Pica (apetite por itens não alimentares) e um risco iminente de obstrução gastrointestinal, uma emergência cirúrgica. Por fim, “vida”: a presença de filamentos brancos nas fezes pode ser a migração de vermes (como o Toxocara cati) ou os clássicos proglotes de tênia que parecem “grãos de arroz”. Qualquer indício de parasitas exige uma coproparasitologia completa para identificação e tratamento específico.

O Elemento Comportamental e o Diagnóstico de Sonda (Abordagem Holística)

Não avaliamos apenas o material; avaliamos o processo. O comportamento do seu paciente na caixa de areia é tão informativo quanto as fezes que ele produz. Uma clínica moderna é sempre holística, integrando a patologia com a etologia.

Aversão à Caixa de Areia (Periúria e Peridefecação) e a Dor Abdominal

Se o gato está defecando fora da caixa (peridefecação), o primeiro instinto do tutor é pensar em birra. Seu instinto deve ser: dor ou aversão.

A aversão à caixa pode ser por sujeira, substrato ou localização inadequada. Mas a dor é um diagnóstico que você não pode perder. Um gato com constipação pode associar a dor da defecação ao local (a caixa), levando à peridefecação. Gatos com artrite ou doença articular degenerativa no quadril ou coluna podem sentir dor ao agachar na postura de defecação, preferindo superfícies mais planas e macias. Além disso, a cistite intersticial felina, frequentemente associada ao estresse, pode causar dor pélvica que se manifesta como desconforto generalizado na caixa. Sempre investigue a dor articular em qualquer gato que esteja eliminando fora do lugar.

A Frequência e o Volume: O Ritmo do Trato Gastrointestinal Felino

A frequência normal de evacuação para um gato adulto é geralmente uma a duas vezes por dia. Variações podem ser sinais patológicos.

A poli-quesia (aumento da frequência) é classicamente associada à diarreia de Intestino Grosso (colite), como mencionei, onde pequenas quantidades são eliminadas muitas vezes. Já a oligo-quesia (diminuição da frequência) é o sinal de alerta para a constipação. O volume também é um termômetro: um volume fecal muito grande pode indicar diarreia de Intestino Delgado (má absorção), onde mais material não digerido é expelido. Um volume pequeno com esforço é a colite. A frequência e o volume ajudam a refinar a localização do problema e a diferenciar se a causa é dietética (grande volume, frequência normal) ou inflamatória (pequeno volume, alta frequência).

O Odor e a Fermentação: Desequilíbrio Microbiano e Disbiose Severa

Embora o olfato não seja o critério mais objetivo, um odor fétido, excessivo e incomum é um sinal de fermentação bacteriana anormal e disbiose.

Isso geralmente ocorre quando proteínas ou carboidratos não digeridos chegam ao cólon e são utilizados pelas bactérias. Produtos dessa fermentação (como sulfeto de hidrogênio e amônia) resultam em gases e odores extremamente fortes. Isso aponta para um desequilíbrio: ou a digestão no TGI superior não está sendo eficaz (pâncreas ou bile), ou há um crescimento excessivo de bactérias patogênicas no intestino, o que exige um olhar atento para a saúde da microbiota e o uso criterioso de probióticos e prebióticos.

Manejo e Profilaxia: A Dieta como Base da Saúde Fecal

Chegamos à parte mais prática e preventiva da sua rotina clínica: o manejo. Se as fezes são o produto, a dieta e a hidratação são a linha de produção. Como veterinários, nosso papel é otimizar essa produção.

O Papel Essencial da Hidratação na Modulação do Bolo Fecal

Você já ouviu o bordão: “Gato bebe pouco”. Isso não é apenas uma observação; é a fisiologia renal felina funcionando para a vida no deserto. Gatos concentram muito bem a urina, mas isso os torna extremamente vulneráveis à desidratação, o que se manifesta primeiro na constipação.

A ingestão hídrica insuficiente é um fator de risco primário para a formação de fezes Tipo 1 ou 2. Em um gato com tendência à constipação ou, pior ainda, com doença renal crônica (DRC), a água se torna o nutriente mais importante. Sua primeira intervenção deve ser aumentar a ingestão hídrica, seja através de água corrente (fontes para gatos), enriquecimento do alimento seco com água morna, ou a transição para dietas úmidas, que possuem um teor hídrico de 70% a 85%, em contraste com os 5% a 10% da ração seca.

Nutrientes Funcionais: Fibras, Prebióticos e Probióticos

No manejo da saúde intestinal, não podemos esquecer da nossa trindade funcional.

As fibras (solúveis e insolúveis) são moduladoras da consistência: as solúveis fermentam e nutrem a microbiota (como o psyllium), e as insolúveis aumentam o volume e a motilidade. O uso de prebióticos (alimentos para as bactérias boas, como FOS e MOS) e probióticos (suplementos com bactérias benéficas, como Enterococcus faecium) é o alicerce no tratamento de qualquer disbiose ou diarreia crônica. Lembre-se, o probiótico deve ser específico para a espécie, ter a cepa correta documentada e ser usado como parte de um protocolo, e não como um “milagre” isolado. Eles ajudam a restabelecer a eubiose e a regularizar a consistência fecal pós-antibioticoterapia ou em casos de DII branda.

Comparativo de Dietas: Ração Seca, Úmida e Alimentação Caseira

A dieta é o fator mais influente na qualidade das fezes. Seu paciente, como um carnívoro estrito, exige proteína e hidratação. O manejo dietético é o seu principal aliado.

Para ilustrar as diferenças, veja o quadro comparativo abaixo, que resume as implicações fecais das três principais categorias de dietas que encontramos na clínica:

CaracterísticaDieta de Ração Seca (Premium/Super Premium)Dieta Úmida (Enlatada/Sachê)Alimentação Caseira (Balanceada)
Teor HídricoBaixo (5% – 10%)Alto (70% – 85%)Variável (70% – 75%)
Volume FecalModerado a Alto (devido ao teor de carboidratos e grãos)Baixo (Alta digestibilidade, baixo resíduo)Baixo (Alta digestibilidade se for BAP)
Consistência TípicaTipo 3 (Ideal) ou Tipo 1/2 (se houver pouca água ingerida)Tipo 4 (Ideal) ou ligeiramente mais maciaTipo 4 (Ideal) ou com variações por fibra
Risco de ConstipaçãoAlto, se a ingestão hídrica for marginal.Baixo a Mínimo.Variável, depende da inclusão de fibras.
Odor FecalGeralmente moderado.Baixo a moderado.Pode ser mais forte devido à proteína e menor uso de prebióticos.

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A transição para uma dieta úmida, por exemplo, é a maneira mais eficaz e natural de combater a constipação em gatos geriátricos com DRC. Da mesma forma, uma dieta com baixo resíduo (como a úmida) é ideal para pacientes com colite, pois o intestino irritado não precisa processar grande volume.

Em resumo, meu colega, o cocô do gato é o nosso manual de instruções diário. Você precisa ter essa mentalidade clínica de inspecionar, correlacionar e, acima de tudo, educar o tutor. Transforme a aversão natural deles em uma ferramenta de monitoramento da saúde do paciente. É essa a diferença entre um bom técnico e um excelente médico veterinário.


Você gostaria que eu pesquisasse um protocolo clínico específico para o manejo da DII em gatos, já que é uma das principais causas de fezes anômalas?

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